quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Somos assim

Somos aves já sem sombra sobre a terra.
Variações no limiar do olhar.
Um fio de luz que rasga o céu.
Somos a terceira margem num rio de metáforas.
Agitação no suor de uma lua nova.
Uma estrada sem paragem rumo à raiz dos carvalhos.
Somos a música que escapa à harpa.
Notas brancas que rebentam no peito.
Mãos esticadas à memória dos segundos.
Somos pedras esculpidas que caiem do olhar.
Templos romanos sufragados no amor.
O alicerce que nega a dor.
Somos a hábil fuga do silêncio.
Donairosas representações da viagem.
A ortografia do mel.
Somos tudo.
Somos nada.
Um ponto.
Um porto.
Um beijo.
Uma flor.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Corcel

É tarde demais para descodificar o frémito declive das palavras sob a língua.
Um corcel despreza os estilhaços do espelho medo e corre indomável no asfalto do sonho.
Tanto mar no precipício do destino...
Tanto azul no pulsante querer da cal que dá cor às rosas.
Tanta sede no bico dos seios que escorre no peito o gosto ausente da língua.
Fustiga-me com o espiral voo dos pássaros sobre o mel da loucura.
Arranca-me das mãos o sal das lágrimas amotinadas no ventre do outono.
Traz-me todas as cores do arco-íris na tempestade do desejo.
Agarra-me pela cintura e acompanha-me no absoluto tango do prazer.
E a tremer traz-me à boca o gosto das amoras silvestres.
Deixa ficar na tua pele a cor do entardecer.
No teu cabelo vestígios de saliva e de pecado.
Nos teus olhos o brilho de todas as estrelas.
E no teu sorriso segredos de Apolo.

quinta-feira, 26 de março de 2015

Pátria do desejo

Rosa branca que  rasgas a noite na invisível mão de um anjo
A tua luz surge como o deslumbre de um parto
Inunda a pulsante infância do amor
Sob a materna mudez de uma macieira na sombra
Alimenta a minha doce e vertiginosa mendicidade
Encanta-me com a tua suplicante lucidez de pássaro
Uterina razão dos meus exilados dias
Traz-me lábios que a ninguém pertençam
Enquanto dura o delírio da absoluta pátria do desejo
Acerta o teu corpo no relógio da incerteza
Muda a genética cor dos meus olhos
Ou então celebra comigo a biografia do silêncio.

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Essências

Com um pouco mais de tela... seria arte
Com um pouco mais de lágrima... seria rio
Com um pouco mais de azul... seria céu
Com um pouco mais de horizonte... seria ave
Com um pouco mais de riso... seria loucura
Com um pouco mais de sonho... seria amor
Com um pouco mais de sol... seria fogo
Com um pouco mais de carne... seria pecado
Com um pouco mais de ti... seria poema
E no imomerial olhar dos anjos
Seriamos eternos


quinta-feira, 24 de julho de 2014

Talvez

Talvez não tenhas dormido nua
para me ofereceres o teu corpo
como uma rosa se oferece à primavera,
Talvez não tenhas encontrado em teus pensamentos
as jónicas formas dos meus ombros
para te segurares à vida
como a lua se segura à noite,
Talvez não tenhas procurado no meu peito
o colo do teu rosto
com a mesma ânsia
com que uma barca se faz o mar,
Talvez não tenhas sentido nas linhas das minhas mãos
o poder do sincrético carinho
com o mesmo destino
com que uma abelha beija a flor,
Talvez não tenhas visto no meu sorriso
a viva linguagem do amor
com a mesma força
com que o vento abraça o mar,
Talvez nem sequer te tenhas lembrado de mim...
E eu...
Talvez nada tenha dormido
com receio de não sonhar contigo!...

quinta-feira, 10 de abril de 2014

Devia olhar-te

existe algo que se desprende de ti
suspiros que não seguras
arroubos que largam lastro
em almas alheias
devia olhar-te
na ausência das palavras
concluir do alinhamento do sol
na imaterialidade do teu rosto
e dançar para ti.
devia olhar-te
eu sei...

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Heranças e afins


Por vezes dou comigo a pensar que nesta estrada da vida é necessário que algumas coisas se arrasem para que outras floresçam.
Há sempre uma curva que nos altera a linha do horizonte. O importante é não perder a noção da viagem, mesmo sabendo de antemão onde ela vai terminar.
Há que ter consciência que não podemos deixar que alguém nos perturbe a paz conquistada. Ouvir de novo algumas vozes "seria matar a sede com água salgada". Muitas vezes essa conquista parte de grandes angústias, mas é ali que se arrancam palavras que nos recongraçam com a vida e nos concedem a salvação. 
Ser positivo é fundamental. É acreditar que cada coisa boa que nos acontece, é como uma nota musical que procura outras para a melodia perfeita.
Assim como as árvores têm as suas raízes para se segurar à terra, nós temos as nossas utopias para nos segurarmos à vida.
Há que aprender a dar valor à liberdade. Posso agora garantir que todos aqueles que entregam a liberdade pela segurança e conforto, não merecem nem uma coisa, nem a outra!
A nossa felicidade só é totalmente genuína quando deixarmos de pensar nos motivos que a justificam.
E quando alguém nos diz: “ A dor é inevitável, mas o sofrimento é opcional”, nesse momento começamos a compreender o que deveremos fazer...

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Aprendiz de sonho


Como seria bom levar-te pela mão junto ao rio e
mostrar-te como se desobedece o silêncio
enquanto uma borboleta se eleva no pensamento.
Como seria bom acender uma palavra pura
para que pusesses sentir um pequeno deus
abrir uma clareira no verão só para te revelar
porque o sonho nasce no inicio do sorriso.
Como seria bom pousar as mãos na geografia do teu rosto e
demonstrar-te todos os incêndios da noite
na brandura de um desprendido nada.
Estou farto da perseguição desta lucidez contemporânea
que nos condena ao logro e
nos torna reféns de um perfeito abandono.
Prefiro despir-me e deitar-me inocentemente nu nas margens e
reaprender a nomear a pele, assim,
como um aprendiz de sonho.
Ali, mesmo ao teu lado!

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Promessa

De joelhos naquela areia quente
Para melhor contemplar as estrelas.
Despedimo-nos.
Tínhamos aquela estranha sensação
De nunca mais tornar ali.
Sabíamos ambos que acima dessa inserção, apenas...
A própria morte.
Renascemos assim para a água, para o ar, para a terra e para o fogo...
E voamos.

Momentos

Havia uma gaivota sobrevoando a costa.
Não precisava sequer de bater as asas.
Toda se oferecia para a liberdade.
Subia, descia, pairava e ainda cantava.
Chegava a ser irritante tão desmesurada beleza.
Havia apenas uma gaivota sobrevoando a costa...
Para dividir contigo.
E todo este ardente desejo!