quinta-feira, 26 de março de 2015

Pátria do desejo

Rosa branca que  rasgas a noite na invisível mão de um anjo
A tua luz surge como o deslumbre de um parto
Inunda a pulsante infância do amor
Sob a materna mudez de uma macieira na sombra
Alimenta a minha doce e vertiginosa mendicidade
Encanta-me com a tua suplicante lucidez de pássaro
Uterina razão dos meus exilados dias
Traz-me lábios que a ninguém pertençam
Enquanto dura o delírio da absoluta pátria do desejo
Acerta o teu corpo no relógio da incerteza
Muda a genética cor dos meus olhos
Ou então celebra comigo a biografia do silêncio.

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Essências

Com um pouco mais de tela... seria arte
Com um pouco mais de lágrima... seria rio
Com um pouco mais de azul... seria céu
Com um pouco mais de horizonte... seria ave
Com um pouco mais de riso... seria loucura
Com um pouco mais de sonho... seria amor
Com um pouco mais de sol... seria fogo
Com um pouco mais de carne... seria pecado
Com um pouco mais de ti... seria poema
E no imomerial olhar dos anjos
Seriamos eternos


quinta-feira, 24 de julho de 2014

Talvez

Talvez não tenhas dormido nua
para me ofereceres o teu corpo
como uma rosa se oferece à primavera,
Talvez não tenhas encontrado em teus pensamentos
as jónicas formas dos meus ombros
para te segurares à vida
como a lua se segura à noite,
Talvez não tenhas procurado no meu peito
o colo do teu rosto
com a mesma ânsia
com que uma barca se faz o mar,
Talvez não tenhas sentido nas linhas das minhas mãos
o poder do sincrético carinho
com o mesmo destino
com que uma abelha beija a flor,
Talvez não tenhas visto no meu sorriso
a viva linguagem do amor
com a mesma força
com que o vento abraça o mar,
Talvez nem sequer te tenhas lembrado de mim...
E eu...
Talvez nada tenha dormido
com receio de não sonhar contigo!...

quinta-feira, 10 de abril de 2014

Devia olhar-te

existe algo que se desprende de ti
suspiros que não seguras
arroubos que largam lastro
em almas alheias
devia olhar-te
na ausência das palavras
concluir do alinhamento do sol
na imaterialidade do teu rosto
e dançar para ti.
devia olhar-te
eu sei...

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Heranças e afins


Por vezes dou comigo a pensar que nesta estrada da vida é necessário que algumas coisas se arrasem para que outras floresçam.
Há sempre uma curva que nos altera a linha do horizonte. O importante é não perder a noção da viagem, mesmo sabendo de antemão onde ela vai terminar.
Há que ter consciência que não podemos deixar que alguém nos perturbe a paz conquistada. Ouvir de novo algumas vozes "seria matar a sede com água salgada". Muitas vezes essa conquista parte de grandes angústias, mas é ali que se arrancam palavras que nos recongraçam com a vida e nos concedem a salvação. 
Ser positivo é fundamental. É acreditar que cada coisa boa que nos acontece, é como uma nota musical que procura outras para a melodia perfeita.
Assim como as árvores têm as suas raízes para se segurar à terra, nós temos as nossas utopias para nos segurarmos à vida.
Há que aprender a dar valor à liberdade. Posso agora garantir que todos aqueles que entregam a liberdade pela segurança e conforto, não merecem nem uma coisa, nem a outra!
A nossa felicidade só é totalmente genuína quando deixarmos de pensar nos motivos que a justificam.
E quando alguém nos diz: “ A dor é inevitável, mas o sofrimento é opcional”, nesse momento começamos a compreender o que deveremos fazer...

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Aprendiz de sonho


Como seria bom levar-te pela mão junto ao rio e
mostrar-te como se desobedece o silêncio
enquanto uma borboleta se eleva no pensamento.
Como seria bom acender uma palavra pura
para que pusesses sentir um pequeno deus
abrir uma clareira no verão só para te revelar
porque o sonho nasce no inicio do sorriso.
Como seria bom pousar as mãos na geografia do teu rosto e
demonstrar-te todos os incêndios da noite
na brandura de um desprendido nada.
Estou farto da perseguição desta lucidez contemporânea
que nos condena ao logro e
nos torna reféns de um perfeito abandono.
Prefiro despir-me e deitar-me inocentemente nu nas margens e
reaprender a nomear a pele, assim,
como um aprendiz de sonho.
Ali, mesmo ao teu lado!

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Promessa

De joelhos naquela areia quente
Para melhor contemplar as estrelas.
Despedimo-nos.
Tínhamos aquela estranha sensação
De nunca mais tornar ali.
Sabíamos ambos que acima dessa inserção, apenas...
A própria morte.
Renascemos assim para a água, para o ar, para a terra e para o fogo...
E voamos.

Momentos

Havia uma gaivota sobrevoando a costa.
Não precisava sequer de bater as asas.
Toda se oferecia para a liberdade.
Subia, descia, pairava e ainda cantava.
Chegava a ser irritante tão desmesurada beleza.
Havia apenas uma gaivota sobrevoando a costa...
Para dividir contigo.
E todo este ardente desejo!

Claridade

Fala claro comigo como se nada tivesses para me dizer.
Todas as sílabas chegam do latir dos cães que expurgam a noite na sua divina composição.
Encostadas umas às outras riscam a garganta como finas lâminas decididas.
Das mãos vem o grito, da boca o silêncio.
Nos olhos somente o branco outrora oferecido às aves faz a sua teia.
Todas trazem a salvação. Todas marram contra as árvores.
Deverias saber que tudo ficará dito após o canto das rolas.
Fala claro comigo ou então cala-te para sempre.
Ao longe a vela de um barco que vai com o pôr-do-sol!

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Para quê?

dizer o quê?
se o novelo do silêncio emparedou a exulta melopeia das marés salivantes do jasmim.
escrever o quê?
se as frágeis sílabas já não perseguem as colossais palavras que convertiam raios de lua em mel que me rebentava nos lábios.
sentir o quê?
se a imolação da dor retira as velas antes dos prantos sem que os dias possam saciar a sua sede nos sulcos do desejo.
pensar o quê?
se a noite me traz o rasto do teu rosto com um arpão na boca e um desfalque no olhar.
sonhar o quê?
se já nada se pode repetir e a genética magia da admiração perdeu o nome.
acreditar para quê?
se a jugular distância me diz que nascemos fora dos sonhos e que no teu corpo não há uma única palavra que fale de nós.
viver para quê?
Para te amar. E nada mais...